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Sobre Gratidão – Por Patrícia Fasolo Romani

Hoje, 6 de janeiro, é o Dia da Gratidão — uma data que nos convida a refletir sobre o poder desse sentimento em nossas vidas. Para tornar esse momento ainda mais especial, convidamos a Dra. Patrícia Fasolo Romani, Professora e Supervisora do InTCC, a compartilhar conosco palavras que inspiram e fortalecem.

A gratidão é um elo que nos conecta, nos dá resiliência e abre caminhos para começar o ano com mais leveza e propósito.

A palavra Gratidão provém do latim “gratia”, que significa graça, favor, e de “gratus”, que significa agradável e, portanto, refere-se ao reconhecimento agradável pelo que se recebe ou lhe é reconhecido. Abarca diversos processos afetivos tais como simpatia, empatia, culpa, gentileza e vergonha, funcionando como uma força que ajuda as pessoas a manterem a reciprocidade social positiva e a criarem um senso de comunidade baseado principalmente na educação e na moral (Freitas, Tudge, Palhares & Prestes, 2016).

O conceito de gratidão é complexo. Ela tem sido classificada como uma emoção, uma atitude, uma virtude moral, um hábito, um traço de personalidade e/ou uma resposta de enfrentamento (de Lucca Freitas, Silveira & Pieta, 2009; Pieta & de Lucca Freitas, 2009).  Costuma envolver sentimentos de alegria e de agradecimento em resposta ao recebimento de uma dádiva, seja ela relacionada a uma pessoa ou a um momento de paz e bem-estar evocado pelo ambiente. Também pode ser concebida como uma visão de mundo, uma tendência a notar e apreciar os aspectos positivos da vida (Peterson & Seligman, 2004; Seligman, Rashid & Parks, 2006), estimulando traços de compaixão, de generosidade, de extroversão e menos características narcísicas (Kistemacher et al, 2024).

Quando vivenciada numa perspectiva autodigirida, a gratidão é chamada de autogratidão. Autogratidão envolve o autocuidado, o reconhecimento e a valorização das próprias virtudes, além das aquisições realizadas, sem que isso ultrapasse o nível da humildade e alcance a grandiosidade (de Lima Freire, do Nascimento & Roazzi, 2019).

A gratidão pressupõe o seguinte processo: a) apreciação do favor recebido; b) sentimentos positivos dirigidos ao benfeitor; c) reconhecimento do custo da ação para o benfeitor; e d) atribuição de intenção ao benfeitor (o beneficiário não sente gratidão por ações não intencionais). A avaliação dos custos e da intencionalidade da ação do benfeitor tem como consequência o beneficiário ser grato não apenas pela ação recebida, mas também ao próprio benfeitor, criando uma espécie de dívida moral em relação ao benfeitor. Sendo assim, o recebedor retorna o favor ao benfeitor e o ciclo continua, porque o benfeitor sente-se bem e segue fazendo benesses (Pieta & de Lucca Freitas, 2009).   Em contrapartida, a gratidão pode levar ao favorecimento de outra pessoa que não necessariamente o próprio benfeitor, criando neste caso uma espécie de corrente do bem na qual quem recebe é quem precisa (Peterson & Seligman, 2004).

A gratidão pode ser agrupada nas seguintes formas: a) verbal (por exemplo, dizer obrigado), na qual a resposta dependeria do sentimento genuíno por trás da polidez; b) concreta (ou egocêntrica), na qual o beneficiário retribui com alguma coisa que tem valor para ele e não para o benfeitor; c) conectiva, em que o beneficiário retribui o favor com algo que vá ao encontro de um desejo ou necessidade do benfeitor; d) finalística, na qual o beneficiário retribui o favor seja com uma ação que auxilia o objeto desejado, seja com uma ação que promova seu desenvolvimento pessoal. Nesta última, cita-se o exemplo do jovem que tem como maior desejo ser jogador de futebol e que retribuiria ao seu benfeitor fazendo muitos gols (Freitas, Tudge, Palhares & Prestes, 2016).

A capacidade de ter empatia com os outros origina a gratidão, que por sua vez requer algumas habilidades cognitivas sofisticadas, tais como o reconhecimento de indivíduos específicos e a capacidade de armazenar e de lembrar eventos prévios (de Lucca Freitas, Silveira & Pieta, 2009; Giglio, 2017) A gratidão não é inata. Seu desenvolvimento inicia na infância, mais especificamente a partir dos 7 anos, quando há o reconhecimento do sistema de valores da sua família, do grupo de pares e da sociedade. Antes dessa idade, as crianças tendem a levar em conta apenas o benefício recebido e não a intenção do benfeitor, por isso a resposta de agradecimento anteriormente está mais atrelada ao ato de ser educado do que ao reconhecimento do autor (de Lucca Freitas, Silveira & Pieta, 2009; Siqueira & de Lucca Freitas, 2016).

Se o modelo parental é de valorização material e apreço momentâneo em detrimento do contato interpessoal e da duração do estado de satisfação, a tendência é que a criança/adolescente internalize e reproduza esse padrão, inclinando-se a uma perspectiva de vida mais narcísica – individualista e hedonista (Siqueira & de Lucca Freitas, 2016). Em estudos realizados com adultos, verificou-se que quanto mais importância é dada aos bens materiais, menor a frequência e a intensidade do sentimento de gratidão. Por esse prisma, faz sentido pensar que a gratidão pode contribuir para a redução do hedonismo, visto que requer a conservação de uma satisfação no tempo. Além disso, pode ser um antídoto ao individualismo, na medida em que implica uma valorização não apenas do benefício recebido, mas também do benfeitor, dando importância ao outro(Freitas, Tudge, Palhares & Prestes, 2016).

Altos níveis de gratidão indicam uma tendência a apresentar níveis mais elevados de satisfação de vida e afeto positivo, e níveis mais baixos de afeto negativo e cognições relacionadas, tais como pessimismo, desesperança e foco nos aspectos desfavoráveis (Giglio, 2017; Natividade et al, 2019).  Pessoas gratas tendem a serem mais felizes, mais saudáveis e mais resilientes. O otimismo, a boa autoestima, a esperança, a compaixão e o perdão são variáveis associadas à gratidão, bem como a religiosidade e a espiritualidade (Natividade, J. C. et al , 2019; Pieta & de Lucca Freitas, 2009).  

O exercício da gratidão é passível de ser realizado a qualquer momento e por qualquer pessoa, tanto no que se refere aos outros, como no que diz respeito a si mesmo (autogratidão).  Em termos práticos, existem algumas sugestões que podem ser aplicadas (Kistemacher et al, 2024):

  1. Diário de gratidão: onde as pessoas escrevem regularmente (diariamente ou semanalmente) sobre as coisas positivas que aconteceram em suas vidas e pelas quais são gratas; pode ser em formato de listas.
  2. Expressão de gratidão: mensagens escritas ou orais de agradecimento às pessoas.
  3. Meditação da Gratidão: concentrar-se mentalmente nas coisas pelas quais você é grato durante a meditação.
  4. Expressão de agradecimento: dizer “obrigado” de forma mais intencional às pessoas ao seu redor.
  5. Benfeitoria: manifestar compaixão e empatia disponibilizando-se a ajudar quem precisa.  

Referências

– de Lima Freire, M. R., Do Nascimento, A. M., & Roazzi, A. (2019). Autogratidão e autoconsciência: Notas introdutórias ao estudo do conceito de gratidão autodirigida. AMAzônica23(1), 289-306.

– de Lucca Freitas, L. B., Silveira, P. G., & Pieta, M. A. M. (2009). Um estudo sobre o desenvolvimento da gratidão na infância. Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology43(1), 49-56.

– Freitas, L. B. D. L., Tudge, J. R. H., Palhares, F., & Prestes, A. C. (2016). Relações entre desenvolvimento da gratidão e tipos de valores em jovens. Psico-USF21(1), 13-24.

– Giglio, A. C. A. (2017). O efeito da gratidão na reavaliação cognitiva. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, SP.

– Kistemacher, C. G. et al (2024). Psicologia e Psiquiatria Positiva na Prática Clínica: Revisão sobre Intervenções em Gratidão e Otimismo. Revista PsicoFAE: Pluralidades em Saúde Mental13(1), 42-54.

– Natividade, J. C. et al (2019). Gratidão no contexto brasileiro: mensuração e relações com personalidade e bem-estar. Avaliaçao Psicologica: Interamerican Journal of Psychological Assessment18(4), 400-410.

– Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: a handbook and classification. Oxford University Press. American Psychological Association

– Pieta, M. A. M., & de Lucca Freitas, L. B. (2009). Sobre a gratidão. Arquivos Brasileiros de Psicologia61(1), 100-108.

– Seligman, M. E. P., Rashid, T., & Parks, A. C. (2006). Positive psychotherapy. American Psychologist, 61(8), 774–788.

– Siqueira, F. Q., & de Lucca Freitas, L. B. (2016). Desenvolvimento das relações entre humildade e gratidão na infância. Estudos e Pesquisas em Psicologia16(3), 854-872.