
ㅤㅤÉ bem comum e esperado que anualmente diversas empresas, organizações e instituições lancem suas campanhas de prevenção ao suicídio e de valorização da vida nos diversos perfis e meios de comunicação que possuem com o público geral. Porém, pouco se é divulgado, ou até mesmo explicado, acerca dos motivos pelos quais, de fato, a fala pode ser ferramenta psicoterapêutica de cura, quando ouvida e trabalhada com profissionais em saúde mental. Você sabia que quando estamos ouvindo alguém falar e quando estamos falando utilizamos regiões diferentes do nosso cérebro? O mesmo também ocorre quando estamos somente “pensando” sobre determinados assuntos, e não os falando, elaborando e os expondo a outra pessoa. Quando pensamos demais sobre determinados temas que produzem ativações disfóricas em nosso humor (tristeza, melancolia, medo, etc) e não os trabalhamos da forma adequada, é altamente provável e esperado que os conteúdos em questão tomem uma proporção muito maior do que o que realmente são de verdade. Em termos neurológicos, temos muito mais ativações das partes mais “emocionais” (e primitivas) do nosso cérebro quando estamos tendo essas ruminações de pensamentos mais intensos, que podem ser por exemplo sobre temas que deem continuidade ao que já estamos sentindo e pensando. Você já deve ter sentido uma espécie de alívio em algum momento da vida quando simplesmente falou sobre algo que estava lhe incomodando com outra pessoa. De onde vem esse alívio? Essa sensação de peso que se foi? Justamente por estarmos fazendo outra atividade (falar ao invés de ruminar) temos outras ativações neurais, causando menos sobrecarga para as áreas emocionais que estavam bastante ativadas anteriormente.
ㅤㅤÉ da natureza do aparelho psíquico humano que pensemos sobre conteúdos que nos impactam diretamente, sejam eles voltados a eventos externos à nossa mente, ou não. Segue um exemplo bem prático para melhor entendimento:
ㅤㅤGostaria que você não pensasse sobre uma memória vergonhosa que teve no ano passado.
ㅤㅤÉ muito provável, mesmo frente a negativa, para não pensar, caso esteja lendo esse texto com carinho e atenção, que você tenha se recordado de algum evento que ativou a emoção da vergonha em 2025. Nosso aparelho psíquico por muitas vezes não faz esse tipo de associação de “não pensar” sobre determinados assuntos quando gatilhos externos ocorrem, que é o que foi feito de forma indireta com a frase anterior. Agora compreendamos o seguinte: o mesmo também pode continuar ocorrendo com gatilhos internos.
ㅤㅤSe eu sinto vergonha e não trabalho esse sentimento, é esperado biologicamente que meu cérebro fique me “trazendo/lembrando” de mais memórias que tenham relação com essa emoção. Por conseguinte, irei lembrar de mais vezes em que passei vergonha. Nosso cérebro é assim, ele vai criando novas associações a partir das associações que já foram feitas.
ㅤㅤAgora imagine isso em relação à temáticas mais densas, complexas e desesperançosas. Você já tem uma noção de como um “pensamento puxa o outro”. Imagine uma pessoa que esteja dedicando tempo e energia consideráveis para ter contato e recontato com esse tipo de assunto, sem ajuda profissional e sem falar/elaborar os conteúdos com ninguém. É esperado que essa pessoa irá ter bastante sofrimento em razão disso.
ㅤㅤPor isso que, justamente, falar ajuda, e ajuda muito. Quando conversamos com alguém que esteja disposto a ouvir e acolher, sobre algo que estamos ruminando e sofrendo, nosso cérebro muito perspicaz e eficiente tende a nos recompensar com a liberação de alguns “hormônios do bem-estar”, isso já nos minutos iniciais. Sim, isso ocorre simplesmente pelo ato de sabermos que estamos falando com outra pessoa.
ㅤㅤA linguagem e a comunicação sempre fizeram (e farão) parte da nossa espécie, desde o período das pinturas rupestres nas paredes até os tempos modernos de redes sociais e uma quantidade elevadíssima de produção de conteúdo. O ser humano anseia por ouvir e ser ouvido.
ㅤㅤO setembro amarelo vem como um lembrete acerca da importância da fala, visando preservar a vida. Converse com seus familiares, com pessoas importantes para você e também escute a si mesmo.
