AS ARMADILHAS DO AUTODIAGNOSTICO

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Você já parou para pensar na quantidade de informações que absorvemos no passar dos dias e no perigo de incorrermos no autodiagnostico? Monique Siebra Krug, nossa estagiária de Psicologia do InTCC, formanda de Psicologia pela UFCSPA, Bacharel em Biotecnologia e Mestre em Biologia Molecular, ambos pela UFRGS nos convida a refletir sobre!

Confira o texto na íntegra!

O ano de 2020 foi fortemente marcado pela inundação de informações novas, muitas delas sobre saúde. As pessoas comentavam da dificuldade de lidar com isso e o conflito entre fontes com conteúdo e opiniões divergentes. Talvez você já tenha ficado confuso ao tentar decidir qual a melhor conduta para a sua saúde, sem saber se a maneira como se sentia era adequada ou não para as dificuldades que 2020 trouxe. Quando o assunto é saúde mental, emoções e relacionamentos, muitas pessoas se sentem perdidas em relação a si próprias, pois são assuntos sobre os quais não estão acostumadas a conversar e, na maioria das vezes, não receberam educação apropriada para isso. Eventualmente, podem utilizar dessas fontes de informações como suporte para buscar entendimento sobre o que estão sentindo e se perceberem com alguma sintomatologia, e a isso damos o nome de autodiagnóstico.

Desde que o vírus da COVID-19 atingiu o Brasil muitos pacientes passaram a procurar atendimento psicoterápico por sintomas de ansiedade, medo de contaminação, humor deprimido e dificuldades de relacionamento com as pessoas com quem estavam isoladas em casa. A quantidade dessa demanda se destaca em relação aos anos anteriores; hoje a procura por atendimento aumentou no que diz respeito a sintomas psicopatológicos específicos. Entretanto, isso não quer dizer que estamos falando de algum quadro estrutural específico e bem caracterizado, ou seja, um transtorno.

A diferença entre sintoma e transtorno precisa ser avaliada com muita cautela ao traçar a linha da psicopatologia (o nome técnico para “doenças mentais” como depressão, por exemplo). Os veículos de informação passam listas extensas de sintomas que podem indicar algum tipo de transtorno mental (outro nome técnico para “doenças mentais”). Muitas vezes, as informações também incluem opções de tratamentos complicados ou ineficazes e desfechos negativos sobre as condições que estão sendo apresentadas, podendo causar uma sensação de impotência e desesperança sobre a própria saúde para o leitor. Muitas vezes ocorre também a diminuição da importância do que está sendo sentido, porque a informação disponível indicava que o problema precisaria estar muito mais grave para que a pessoa precisasse de tratamento, podendo induzi-la a relevar sintomas importantes até que o quadro já tenha progredido para uma manifestação mais grave e mais prejudicial, dificultando o seu tratamento e reduzindo a sua qualidade de vida.

A questão é ainda mais complicada: o manual que serve como diretriz para os profissionais de saúde mental deixa claro que os contextos situacional e cultural são determinantes ao fechar ou excluir um diagnóstico. Isso quer dizer, por exemplo, que a pandemia de 2020 coloca múltiplos pontos de interrogação no que diz respeito ao fechamento dos diagnósticos de saúde mental durante o ano de 2020. Muitos dos sintomas que surgiram, nesse momento, são respostas normais e esperadas para a circunstância complicada que estamos vivendo. Isso, entretanto, não torna os sintomas menos importantes ou mais fáceis de suportar, o que faz com que seja necessário trabalhar com eles diretamente.

Se você notar que não se sente psicologicamente bem, é importante que busques um profissional psicólogo ou psiquiatra para uma avaliação mais detalhada. Nessa avaliação, sinta-se livre para expor suas preocupações, por menores que as perceba, e expectativas. Dessa forma, juntos, poderão refletir sobre a necessidade de algum atendimento contínuo ou se é suficiente manter a observação para retornar caso os sintomas piorem. Uma alternativa que frequentemente ocorre é identificarem, novamente juntos, que é possível melhorar a sua qualidade de vida mesmo sem ter um problema já estabelecido, ou seja, focando na prevenção de problemas futuros. Quem sabe você até aprenda uma técnica nova para auxiliar na manutenção de ansiedade leve e pontual, por exemplo? Nesses três casos, o profissional de saúde é essencial para o entendimento de em que ponto a situação se encontra (se há um problema ou não, ou se é importante a prevenção), mas a decisão de aderir ou não às recomendações feitas é sua – do paciente.

Por último, não existe decisão única que sirva em todos os casos. Por um lado, lidar com o problema pode mobilizar sentimentos como ansiedade, mas traz tranquilidade conforme vamos avançando nas soluções e viver na dúvida pode ser enlouquecedor. Por isso, evitar o autodiagnóstico e procurar um profissional pode ajudar você a dormir de noite. Lembre-se, a responsabilidade de conhecer e avaliar todos os quadros clínicos não é sua, mas buscar ajuda ao se sentir mal, é algo que só você pode fazer.

Monique Siebra Krug