AMORES QUE CURAM

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Depositamos em 2021 muita esperança: da cura, do abraço, do reencontro. Embora as notícias e últimos acontecimentos mostrem que precisaremos ser pacientes e agirmos com parcimônia, não podemos esquecer dos vínculos que nos fortalecem para enfrentarmos momentos críticos como o que estamos vivendo. Em Amores que Curam o médico psiquiatra Luiz Carlos Prado, um dos sócios fundadores e Professor do InTCC, lembra-nos dos laços transformadores vividos nas relações que nos fortalecem – mesmo que, um dia, elas tenham fim: “(…) Esse é o pacto da vida – para que tenhamos o melhor dela, devemos aprender a enfrentar perdas ou separações e a lidar com as dores e tristezas que acarretam.”

Confira o texto abaixo na íntegra!

Há alguns anos escrevi um capítulo de livro sobre amores que curam e amores que adoecem. Hoje quero falar um pouco sobre aqueles que fazem bem aos parceiros, pois esses podem extrair o melhor ou o pior um do outro.

A ideia que tenho sobre relações amorosas baseadas em algum tipo de compromisso – namoros, noivados, casamentos, recasamentos ou mesmo casos amorosos de longa duração – é de que elas sempre modificam os parceiros de alguma forma. São perceptíveis ao observador atento as modificações que as pessoas envolvidas em algum relacionamento duradouro apresentam no seu modo de vestir, em algum gosto musical, no estilo de viver ou no tipo de lazer ou esporte que compartilham. Mas quero falar aqui, mais do que tudo, sobre as modificações que podem acontecer no modo como as pessoas pensam, sentem e se comportam em outros aspectos da vida.

As crenças que todos temos sobre os relacionamentos, sobre a vida ou mesmo sobre o amor, são construídas geralmente na infância, no convívio com nossos familiares ou cuidadores, sendo matizadas pelas múltiplas experiências vividas nessas relações. Ali aprendemos a acreditar no amor ou a desprezá-lo, a valorizar os relacionamentos ou a ter medo deles, a crer que pessoas podem ser confiáveis ou a desconfiar delas. Aprendemos também sobre o valor de expressar nossas emoções ou sobre os perigos que podem advir do que sentimos em nossos corações. Nessas primeiras relações construímos as bases dos padrões de relacionamento que vamos repetir ou que vamos procurar curar ao longo de nossas vidas, nas múltiplas relações amorosas.

Mas não estaríamos fadados a seguir pela vida repetindo esses padrões, aprendidos precocemente em nossas relações primordiais? Não é esse o princípio da teoria da repetição dos vínculos primordiais? Minha resposta é: certamente não. Vamos seguir encontrando pessoas ao longo de nossa existência que irão confirmar ou contrariar aquilo que aprendemos quando crianças ou adolescentes. São esses novos amores que vão terminar de moldar nossa personalidade e definir quem vamos ser na vida, para o melhor ou para o pior. Acredito que somos capazes de mudar a qualquer momento da vida, desde que nos envolvamos profundamente em relações significativas.

Nos últimos dias todos estivemos celebrando alguma crença ou participando de algum ritual comemorativo, seja o Natal, carregado de mensagens positivas de Paz e Amor, seja o Novo Ano, com sua mística de esperanças e renovação. Por isso, nesse período em que tantas mensagens estimularam nossos melhores sentimentos, quero comentar aquelas relações que nos fazem melhor, que acrescentam coisas boas à vida dos parceiros, que os engrandecem, que mitigam antigas dores e cicatrizam profundas feridas trazidas muitas vezes de um passado longínquo.

Quando escrevi sobre esse tema, citei alguns filmes que mostram, de maneira muito clara, como uma relação amorosa pode transformar a vida de uma pessoa, sua maneira de ver o mundo, suas crenças, modificando comportamentos muitas vezes profundamente enraizados em seu modo de ser. Um desses filmes, “Terra de Sombras”, baseia-se em uma história verídica ocorrida na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Trata-se de um relato comovente sobre uma etapa da vida de Jack, um professor muito culto e solitário, magistralmente representado por Antony Hopkins, que vivia com seu irmão no próprio campus da Universidade. Fechado na expressão de seus sentimentos, escrevia sobre crianças sem nunca com elas conviver e fazia conferências sobre o amor sem vivenciá-lo com nenhuma mulher.

O filme relata seu encontro com Joy (Debra Winger), mãe de um menino de nove anos, que consegue abrir seu coração para a vida e para o amor. Constroem uma linda relação, onde gradualmente as barreiras de Jack vão sendo quebradas, fazendo surgir um coração terno e amoroso que estava enclausurado desde a infância, quando perdera sua mãe. Nesse tempo em que estavam se conhecendo, Joy descobriu que estava com câncer e Jack se propôs a cuidá-la, juntamente com seu filho.

Num momento do relacionamento em que Joy sentiu-se mais próxima, pediu a Jack que lhe dissesse com franqueza qual era sua real situação, antes que o filho chegasse ao quarto. Após alguma hesitação, contou-lhe que os médicos disseram que ela estava desenganada. Joy agradeceu e ficou em silêncio, emocionada. Após um tempo que pareceu uma eternidade, dirigiu-se a Jack, que estava em pé ao seu lado, observando-a:

Sabe de uma coisa? Você está diferente. Está me olhando do modo certo.

Não olhava antes? Perguntou Jack.

Não do modo certo.

Não quero perdê-la, disse Jack, com forte emoção.

Ficou claro, naquele momento, como a relação já havia modificado Jack. Ele estava diferente – começava a poder falar de seus sentimentos, seu olhar expressava emoção – tudo muito diverso do modo como sempre costumava se relacionar. Após a partida de Joy, Jack passou a cuidar do filho dela, a seu pedido. Sua vida havia sido transformada para sempre – aquele menino era como ele quando pequeno, vivera a perda inestimável de sua mãe. Mas agora, diferente de Jack em sua infância, manteve o coração aberto à experiência da dor e da tristeza e tinha a seu lado alguém com quem repartir seus sentimentos e sentir-se acolhido. (Prado, Amor e violência nos casais e nas famílias, 2004)

Num outro filme, Outono em Nova Iorque, Richard Gere protagoniza Will, um homem difícil, acostumado a ter muitos relacionamentos sem compromisso, cuja filha se mantinha distante dele por sentir-se desamada e descuidada pelo pai ao longo de seu crescimento. Ao conhecer a jovem Charlotte, vivida pela expressiva Winona Rider, se encanta com ela, sem saber que era filha de uma antiga namorada sua, que sofrera muito por suas traições. Aos poucos estabelecem uma relação que vai modificando, passo a passo, a vida de cada um deles. Novamente a doença interfere, fazendo com que Charlotte necessite de uma difícil cirurgia, que acaba sendo realizada com a ajuda de Will e de sua filha Lisa, uma pesquisadora, de quem finalmente conseguira se reaproximar, pedindo perdão por suas falhas com ela. Ao longo do filme pode-se observar as profundas transformações que vão acontecendo no modo de Will ver a vida.

Após um desmaio de Charlotte, numa noite mágica em que observavam as luzes do Natal, Will acompanha-a até o hospital. Antes de entrar na sala cirúrgica, conversam ainda um pouco, muito próximos. Will recita-lhe um poema ao ouvido:

O tempo não pode arrancar do pássaro a sua asa.
Pássaro e asa, juntos, são inseparáveis.
Nada que voa, nem a cotovia, nem você,
Pode morrer como os outros morre.

Charlotte surpreende-se com aquela forma diferente dele se expressar e pergunta-lhe, sorrindo:

O que eu te fiz?

Me matou para as outras mulheres.

– Eu te salvei para elas… respondeu, emocionada.

Will havida modificado sua visão do mundo e dos relacionamentos, reconciliando-se com a filha que havia negligenciado por muitos anos. Aprende, como Jack, o verdadeiro significado do amor, que implica também cuidado com a outra pessoa. Joy ensinara Jack a enfrentar seus sentimentos – ele aprendeu a lidar com as dores das perdas, cuidando dela até o final da vida, podendo despedir-se e chorar sua partida. Pode experimentar as coisas boas que uma relação amorosa proporciona, mesmo que, ao final, tenha experimentado a dor da separação. Esse é o pacto da vida – para que tenhamos o melhor dela, devemos aprender a enfrentar perdas ou separações e a lidar com as dores e tristezas que acarretam.  

Esses é um exemplo de obra cinematográfica, embelezada pelos belos atores e lindas imagens, que contam histórias de vida e de amores semelhantes aos vividos por pessoas reais. Pois, na verdade, muitos amores eliciam o melhor de cada pessoa, tornando-as mais ricas, mais amorosas, mais bonitas, mais felizes. Após um ano tão difícil como esse que recém vivemos, nesse país machucado por tantos conflitos e tantas violências, quero desejar que possam viver em suas vidas algum amor como esse, que enriquece a vida e ameniza as dores da alma. Vale a pena!

                                                                       Luiz Carlos Prado